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Adobe e o desafio das licenças: como as redações podem economizar sem perder qualidade

Licenças, sistemas e assinaturas se acumulam silenciosamente no orçamento de um veículo de comunicação. Revisar esses custos com calma, antes da crise, é muito diferente de cortá-los às pressas. A Adobe é o exemplo mais claro de por que vale começar agora.

ArtCraft
ArtCraft planeja substituir programas da Adobe Imagem: ArtCraft

Em quase toda redação, o corte de gastos chega do mesmo jeito: de repente, de cima para baixo e com pressa. A receita cai, a diretoria pede uma redução de custos e, em poucas semanas, decisões que mereciam meses de estudo são tomadas em reuniões de algumas horas. Nesse cenário, o que costuma sair primeiro são as pessoas, e não as ferramentas.

Existe outro caminho: revisar continuamente os recursos de tecnologia, procurar alternativas melhores e mais baratas e testá-las sem pressa, enquanto ainda há margem para errar. Computadores, sistemas operacionais e ferramentas digitais formam uma parte relevante, e muitas vezes invisível, do custo de operação de um veículo de comunicação.

O pacote Adobe é um bom ponto de partida para essa conversa. Ele continua amplamente usado nas redações brasileiras, em grande parte por herança. Veículos que nasceram no jornal impresso montaram seus fluxos em torno do InDesign, do Photoshop e do Illustrator, e esses fluxos sobreviveram à migração para o digital. Muitos ainda mantêm o impresso no portfólio e dependem dessas ferramentas no fechamento diário. Outros já não imprimem nada, mas seguem pagando pelo pacote completo por costume.

O case Adobe: como uma ferramenta vira dependência

Da compra ao aluguel

Durante décadas, comprar um programa da Adobe era como comprar uma ferramenta: pagava-se caro, uma vez, e ele era seu enquanto o computador aguentasse. Em 2013, a empresa mudou o modelo. Os programas novos passaram a ser vendidos apenas por assinatura, na Creative Cloud.

A assinatura tem vantagens reais: custo de entrada menor e atualizações constantes. O problema não é poder alugar, é não poder mais comprar. Quem para de pagar mantém os arquivos no computador, mas perde o acesso aos programas que os abrem. As fontes da assinatura, que na maioria das vezes não está no foco das atenções, também vão embora deixando uma bomba relógio de direitos de uso armada.

A prisão é o arquivo

A dependência mais forte não está no programa, está no formato. O PDF nasceu na Adobe e hoje é um padrão aberto. O PSD, do Photoshop, tem documentação pública. Mas um projeto do InDesign, do Premiere ou do After Effects só é aberto por inteiro pelo próprio programa que o criou. O trabalho é do time de design do veículo. Mas a chave para abri-lo direito é da Adobe, e só com assinatura ativa.

Para uma redação com anos de páginas diagramadas, modelos de capa, vinhetas e projetos de vídeo arquivados, isso pesa muito em qualquer decisão de troca.

A multa por sair

A Adobe vende planos mensais sem fidelidade e também o plano “anual, cobrado mensalmente”, que parece mensal, mas não é. Nos Estados Unidos, quem cancelava esse plano antes de completar o ano pagava cerca de metade das parcelas restantes.

O governo americano processou a empresa em 2024, acusando-a de esconder essa multa em letras miúdas e de dificultar o cancelamento. Segundo a ação, um executivo da própria Adobe chegou a comparar a multa a “heroína” para a empresa, por causa do efeito sobre a receita. Em 2026, a Adobe fechou um acordo de US$ 150 milhões e se comprometeu a informar a multa com clareza e a facilitar o cancelamento. A empresa nega irregularidades. No Brasil, a regra é mais branda, mas a multa por cancelamento antecipado também existe.

As regras mudam no meio do caminho

Outros episódios mostram como quem fornece a ferramenta também define as regras:

  • Pantone: após uma mudança no acordo entre as duas empresas, arquivos antigos passaram a exibir cores Pantone substituídas por preto. Para recuperá-las, era preciso uma assinatura à parte.
  • Termos de uso: em 2024, novos termos que mencionavam acesso ao conteúdo dos usuários por métodos automáticos e manuais geraram temor de que os trabalhos fossem usados para treinar IA. A Adobe negou e reescreveu o texto.
  • Concorrentes: nos anos 1990, autoridades americanas obrigaram a Adobe a se desfazer do FreeHand, rival do Illustrator. Anos depois, ao comprar a Macromedia, a Adobe voltou a ser dona do programa e, pouco depois, encerrou o desenvolvimento dele. Mais recentemente, desistiu de comprar o Figma por US$ 20 bilhões depois de objeções de reguladores europeus e britânicos, e pagou US$ 1 bilhão de multa contratual.

A novidade: rivais que nascem rápido

Em outubro de 2026, um projeto chamado ArtCraft lançou sete aplicativos gratuitos e de código aberto, cada um inspirado em um programa da Adobe. O principal, o PhotoCraft, imita o Photoshop. Segundo o autor, o código foi escrito com ajuda de agentes de inteligência artificial, e os programas rodam também no Linux, onde a Adobe nunca lançou seus aplicativos.

O projeto chamou atenção, com dezenas de milhares de estrelas no GitHub em poucos dias, mas ainda está em fase alfa. Testes independentes apontam falhas, alto consumo de memória e fidelidade limitada aos arquivos PSD. Os próprios desenvolvedores admitem que ele ainda não substitui o Photoshop no trabalho profissional. Também não há auditoria de segurança conhecida, e a questão jurídica sobre a reprodução dos programas da Adobe segue em aberto.

A lição não é que a Adobe vai cair amanhã. É outra: alternativas que antes exigiam grandes equipes e muito dinheiro agora surgem mais rápido. Para quem compra tecnologia, isso significa que vale olhar o mercado com frequência, porque o cenário de seis meses atrás pode já não valer.

O que o caso ensina às redações

  1. O custo real inclui o custo de sair. Antes de adotar uma ferramenta, pergunte como seria abandoná-la.
  2. Formato aberto é seguro de vida. Quanto mais o acervo depende de um formato fechado, maior a dependência.
  3. Contrato importa tanto quanto preço. Fidelidade, multa e reajuste definem a liberdade de decisão.
  4. Herança não é estratégia. “Sempre usamos” não é justificativa para uma licença.
  5. Teste antes de precisar. Uma migração feita com calma custa menos do que uma feita sob corte.

Checklist: como revisar os recursos de tecnologia da redação

Inventário

  • Liste todas as licenças pagas: sistemas operacionais, pacotes de escritório, design, vídeo, áudio, PDF, banco de imagens, fontes, ferramentas de IA.
  • Identifique quem usa cada licença e com que frequência.
  • Encontre licenças ociosas, de ex-funcionários ou duplicadas.
  • Verifique quem é o titular de cada conta e se o acesso está em e-mail corporativo.

Uso real

  • Quem precisa do pacote completo e quem usa um único programa?
  • Quem abre o Photoshop só para recortar e redimensionar fotos?
  • O que exige a versão profissional e o que uma ferramenta gratuita resolveria?

Contratos

  • Qual é o tipo de plano: mensal, anual cobrado mensalmente ou anual pré-pago?
  • Há multa por cancelamento? Qual é a data de renovação?
  • O fornecedor oferece desconto para empresas de mídia ou por volume?

Dependências

  • Quais formatos fechados o acervo usa?
  • O fluxo do impresso depende de plugins ou de sistemas editoriais integrados ao InDesign?
  • As fontes da identidade visual são próprias, licenciadas à parte ou vêm da assinatura?
  • Que arquivos chegam de fora, como anúncios e materiais de agências, e em qual formato?

Alternativas e testes

  • Existe alternativa gratuita ou mais barata para cada função?
  • Ela atende ao padrão de qualidade do produto final?
  • Foi testada por pelo menos um profissional da área, em trabalho real, por algumas semanas?
  • Qual é o custo de treinar a equipe e de perder produtividade durante a transição?

Revisão periódica

  • Defina um responsável e uma data fixa para revisar o inventário, pelo menos uma vez por ano.
  • Revise antes de cada renovação de contrato, e não depois.

Quanto dá para economizar por jornalista?

O exemplo a seguir compara o custo de um computador com Windows 11 Pro e assinatura Adobe com um computador com Linux e ferramentas gratuitas. Os valores são de outubro de 2026 e servem como ordem de grandeza.

Premissas

  • Windows 11 Pro: R$ 1.599 na loja da Microsoft, licença única. Diluída em quatro anos de uso do computador, dá cerca de R$ 400 por ano. Em máquinas compradas com o sistema já instalado, o custo costuma vir embutido e ser menor.
  • Adobe Creative Cloud Pro para equipes: R$ 480 por mês por licença no plano anual, ou R$ 5.760 por ano. Novos assinantes pagam R$ 383,95 por mês no primeiro ano, para até nove licenças.
  • Photoshop para equipes: R$ 169 por mês, ou R$ 2.028 por ano.
PerfilCusto atual por anoCom Linux e ferramentas gratuitasEconomia por ano
Designer ou diagramador com pacote completocerca de R$ 6.160R$ 0 em licençascerca de R$ 6.160
Repórter ou editor que só usa Photoshopcerca de R$ 2.430R$ 0 em licençascerca de R$ 2.430

Em uma redação de 20 pessoas, com 4 profissionais no pacote completo e 16 apenas com Photoshop, a conta passaria de R$ 63 mil por ano em licenças. Em três anos, quase R$ 190 mil.

Vale notar: boa parte dessa economia pode vir antes de qualquer troca de sistema. Muitas redações pagam o pacote completo para quem usa um único programa, ou pagam Photoshop para quem só redimensiona fotos.

Ferramentas que podem substituir

FunçãoAdobeAlternativas gratuitas
Edição de imagemPhotoshopGIMP, Krita, Photopea (no navegador), Affinity (Windows e Mac)
Ilustração e vetorIllustratorInkscape, Affinity
DiagramaçãoInDesignScribus, Affinity (Windows e Mac, importa arquivos IDML)
Edição de vídeoPremiereKdenlive, Shotcut, DaVinci Resolve (versão gratuita)
Animação e efeitosAfter EffectsBlender, Natron
Tratamento de fotosLightroomDarktable, RawTherapee
Documentos e PDFOffice e AcrobatLibreOffice, PDF Arranger, Okular
ExperimentalPacote completoArtCraft (em fase alfa, não recomendado para produção)

O Affinity, que pertence ao Canva, se tornou gratuito e reúne edição de imagem, vetor e diagramação em um único aplicativo. Ele não roda no Linux, mas pode reduzir a conta da Adobe mesmo para quem continuar no Windows ou no Mac.

A ressalva: economia que derruba a qualidade não é economia

As alternativas têm limitações reais, e é preciso verificar se elas comprometem o produto e a rotina:

  • Impresso: o fechamento exige domínio de CMYK, perfis de cor e PDF no padrão da gráfica. Teste a saída de ponta a ponta com a gráfica antes de qualquer mudança.
  • Arquivos antigos: projetos do InDesign e do Premiere não abrem por completo em outros programas, e a fidelidade ao PSD varia.
  • Arquivos de terceiros: anunciantes e agências enviam materiais no formato da Adobe.
  • Fontes: as fontes que vêm da assinatura deixam de funcionar quando ela é cancelada.
  • Sistemas integrados: fluxos editoriais do impresso costumam depender de plugins e integrações com o InDesign.
  • Linux: exige suporte técnico preparado, e nem todo periférico, plugin ou programa corporativo funciona nele.
  • Pessoas: treinamento, adaptação e resistência da equipe têm custo e tomam tempo.
  • Ferramentas novas: projetos recentes, como o ArtCraft, não têm auditoria de segurança conhecida. Só baixe de fontes oficiais.

Um caminho prudente é começar pelos perfis mais simples, como quem só trata fotos para o site, e manter o pacote Adobe onde ele é insubstituível, como no fechamento do impresso. Uma redação não precisa ser 100% Adobe ou 100% livre. Precisa saber por que cada licença existe.

Justo pelo justo

A Adobe não é vilã por cobrar caro por boas ferramentas. Ela fez o que empresas fazem quando os clientes têm dificuldade de sair. O erro está do lado de quem compra: deixar que a herança e o costume decidam, e só olhar para a conta quando a tesoura já chegou.


Fontes: