Publishers

Jarvis, TARS ou HAL 9000: qual inteligência artificial está escrevendo no seu veículo de comunicação?

Pedir um texto à IA, achar o resultado fantástico e publicar parece produtividade. Para um veículo de comunicação, pode ser o pior erro possível: o texto sai bonito, mas sem nada que só você poderia ter escrito.

Um modelo de linguagem não consulta os fatos. Ele calcula qual é a sequência de palavras mais provável a partir de tudo o que já leu.
Um modelo de linguagem não consulta os fatos. Ele calcula qual é a sequência de palavras mais provável a partir de tudo o que já leu.

O cinema já imaginou a inteligência artificial de várias formas, e três delas ajudam a entender o momento que as redações estão vivendo.

Jarvis, de Homem de Ferro (2008), é o assistente perfeito. Faz cálculos, organiza informações, executa tarefas e avisa quando algo vai dar errado. Mas quem inventa a armadura é Tony Stark.

TARS, de Interestelar (2014), é o robô que tem parâmetros ajustáveis. Em uma cena, o protagonista descobre que a honestidade da máquina está configurada em 90% e o humor em 100%, e decide baixar esse último. É o humano quem regula a máquina, e não o contrário.

HAL 9000, de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), é o oposto. Calmo, educado e eloquente, ele garante que nenhum computador da sua série jamais cometeu um erro. Pouco depois, diagnostica uma falha que não existe, atribui o problema a "erro humano" e assume o controle da missão.

Os três falam bem. A diferença está em quem decide.

O assistente que todo mundo queria

A ideia de uma IA no estilo Jarvis deixou de ser ficção. Em setembro, a Meta lançou o Muse, um agente pessoal capaz de enviar e-mails, organizar a agenda, montar listas de compras e até fazer pagamentos em nome do usuário. O produto reacendeu um debate que criadores de conteúdo de tecnologia já vinham fazendo: o melhor uso da IA para a pessoa comum não é substituir o trabalho dela nem fazer sua arte, e sim devolver tempo.

É uma visão sedutora, e correta. Um assistente que pesquisa, organiza e resolve tarefas repetitivas libera o profissional para o que realmente importa.

O problema começa quando a redação confunde o assistente com o autor.

O atalho que virou rotina

A cena se repete em veículos de comunicação de todos os tamanhos. Alguém abre uma ferramenta de IA, digita "escreva uma matéria sobre tal assunto", lê o resultado, acha ótimo e publica. O texto vem com título, subtítulos, parágrafos equilibrados e nenhuma vírgula fora do lugar. Parece jornalismo.

Só que parecer jornalismo é diferente de ser. E dá para demonstrar isso por A + B.

A: como a IA escreve

Um modelo de linguagem não consulta os fatos. Ele calcula qual é a sequência de palavras mais provável a partir de tudo o que já leu. O próprio Google descreve assim em sua documentação: os modelos generativos não recuperam fatos, eles preveem uma sequência provável de palavras com base nos dados de treinamento.

Isso tem duas consequências: A primeira é que o texto gerado tende a ser a média do que já foi publicado sobre o assunto. A segunda é que a fluência não depende da veracidade: a máquina escreve com a mesma segurança uma informação correta e uma inventada.

B: o que faz um texto ser jornalístico

O valor de uma reportagem está justamente no que ainda não foi escrito. A entrevista que ninguém fez, o documento que ninguém leu, o dado que ninguém cruzou, o contexto local que só quem cobre aquela cidade conhece, a checagem que separa o boato do fato.

Nada disso está nos dados de treinamento de uma IA. Se estivesse, não seria notícia.

A + B: bonito por fora, vazio por dentro

Somando as duas coisas, o resultado é inevitável. Um texto pedido à IA e publicado sem intervenção é, por construção, uma versão bem escrita do que todo mundo já disse. Ele tem estética, mas não tem apuração. Tem estrutura, mas não tem fonte. Tem ritmo, mas não tem ponto de vista.

E há um agravante: como todos os veículos têm acesso às mesmas ferramentas, o mesmo pedido gera textos muito parecidos em redações diferentes. O leitor passa a encontrar a mesma matéria, com pequenas variações, em dez sites. Nesse cenário, o que diferencia um veículo do outro deixa de existir.

O efeito HAL 9000

O risco não é só a falta de originalidade. É também o erro dito com convicção.

Em maio de 2025, o Chicago Sun-Times e o Philadelphia Inquirer publicaram, em cadernos especiais, uma lista de leituras para o verão com 15 livros recomendados. Dez deles não existiam. Os títulos e as sinopses foram inventados por uma IA e atribuídos a autores reais e consagrados, como Isabel Allende e Percival Everett. O material havia sido produzido por um freelancer e distribuído por uma agência de conteúdo. Os dois jornais tiraram a lista do ar e tiveram de se explicar aos leitores.

Não foi um caso isolado. Em 2023, a Sports Illustrated publicou textos gerados por IA assinados por autores que não existiam, com perfis fabricados. Antes disso, o site de tecnologia CNET já havia publicado reportagens feitas por IA com erros básicos.

Em todos esses casos, o texto estava bem escrito. Foi exatamente isso que permitiu que passasse.

O que o veículo perde

Credibilidade. Um erro de IA publicado não é visto como falha da ferramenta, mas do veículo. E a confiança do leitor leva anos para ser construída e uma manchete para ser perdida.

Visibilidade. O Google afirma que usar IA generativa para produzir muitas páginas sem agregar valor ao usuário pode violar sua política de spam sobre abuso de conteúdo em escala. A empresa também orienta que todo conteúdo gerado por IA seja checado e revisado manualmente antes da publicação.

Receita. Conteúdo sem valor próprio também é barrado em programas de monetização. O Google AdSense, por exemplo, recusa sites com a justificativa de "conteúdo de baixo valor" quando não identifica contribuição original.

Identidade. Um veículo é reconhecido pela sua voz, pelas suas fontes e pelo seu olhar. Se o texto pode ter sido escrito por qualquer um, ele não é de ninguém.

Como usar a IA do jeito certo

Nada disso significa que a IA deva ficar fora da redação. Significa que ela precisa estar no lugar do TARS, e não do HAL.

Onde a IA ajuda de verdade:

  • Transcrever entrevistas e reuniões
  • Resumir documentos longos, relatórios e processos
  • Organizar dados e planilhas
  • Sugerir títulos, estruturas e perguntas para entrevistas
  • Revisar gramática, clareza e ritmo
  • Traduzir material de referência
  • Adaptar um texto já apurado para outros formatos, como newsletter e redes sociais

O que continua sendo trabalho de jornalista:

  • Decidir o que é pauta
  • Ouvir fontes e conferir versões
  • Checar cada dado, nome, número e citação
  • Dar contexto e interpretar
  • Assumir a responsabilidade pelo que foi publicado

Checklist antes de publicar

Antes de colocar no ar um texto que passou por IA, responda:

  • O que este texto tem que nenhum outro veículo tem?
  • Há pelo menos uma informação apurada por nós, como fonte, dado ou documento?
  • Todos os nomes, números, datas e citações foram conferidos na origem?
  • O texto tem a voz e o padrão editorial do nosso veículo?
  • Um jornalista leu do começo ao fim e assume a autoria?
  • O leitor sabe, quando for relevante, que houve uso de IA no processo?

Se a primeira resposta for "nada", o texto ainda não está pronto.

Mantenha a identidade da marca do seu veículo de comunicação através do conteúdo

Jarvis nunca construiu a armadura. TARS nunca escolheu o destino da nave. O único computador do cinema que resolveu assumir a missão sozinho foi o HAL 9000, e todos sabem como essa história termina.

A IA pode ser a melhor assistente que uma redação já teve. Mas, no dia em que ela virar a autora, o veículo terá trocado o que tem de mais valioso, que é a apuração e a credibilidade, por parágrafos bem alinhados. O leitor pode até não perceber na primeira vez. Na décima, ele já estará lendo outro site.

 

Fontes