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Donos do assunto: o que Lito Sousa, Pirula, Rita Lobo e Iberê Thenório ensinam a quem comunica

Quatro comunicadores brasileiros provaram que foco e autoridade em temas específicos, como aviação, paleontologia e culinária, são o caminho para conquistar milhões e se tornar referência na era digital.

Conteúdos nichados

Aviação, fósseis, comida de casa e "como as coisas funcionam". Nenhum desses temas parecia capaz de segurar uma audiência de milhões. Mesmo assim, quatro comunicadores brasileiros fizeram exatamente isso.

Lito Sousa passou anos explicando aviação no canal Aviões e Músicas. Pirula levou paleontologia e evolução para o YouTube. Rita Lobo transformou a cozinha do dia a dia no Panelinha. Iberê Thenório, do Manual do Mundo, fez gerações pararem para ver um experimento caseiro.

Eles não tentaram falar de tudo. Escolheram um assunto e viraram a referência nele. Para quem trabalha com comunicação, seja numa redação, num canal ou num perfil, essa é talvez a lição mais valiosa da internet atual.

Quem é dono do assunto vira a fonte

Quando o público quer entender um tema, ele procura quem já provou que entende. Hoje essa procura passa pelo YouTube, pelo Google e cada vez mais por assistentes de IA, que também escolhem fontes reconhecidas como referência no assunto.

O Google tem nome para isso: E-E-A-T, ou experiência, especialidade, autoridade e confiança. Os quatro criadores abaixo construíram esses sinais anos antes de a sigla virar moda. Não foi com truque de algoritmo, foi com foco, consistência e conhecimento de verdade.

Para jornalistas, apresentadores e criadores, a pergunta deixa de ser "como alcançar todo mundo" e passa a ser "sobre o que eu sou a melhor resposta".

Quatro lições, quatro trajetórias

Lito Sousa: fale da sua experiência

Lito começou com um curso técnico de manutenção aeronáutica oferecido pela FAB na Base Aérea de Santos. Trabalhou como mecânico na Varig e, por último, na United Airlines. O Aviões e Músicas nasceu como blog e virou canal no YouTube.

Quando ele explicava um avião, falava de quem já tinha posto a mão naquela peça. O público percebe essa diferença.

Lição: experiência vivida é o primeiro "E" do E-E-A-T. Mostre de onde vem o seu conhecimento: a cobertura que você fez, o setor onde trabalhou, as fontes que você conhece.

Pirula: profundidade gera confiança

Paulo Miranda Nascimento, o Pirula, é biólogo, com mestrado e doutorado em zoologia pela USP. A tese foi sobre um grupo de crocodiliformes fósseis. O canal existe desde 2006 e ficou conhecido por vídeos longos e detalhados.

Na contramão do conteúdo curto, ele apostou em explicar tudo, com fonte e raciocínio à vista. Uma parte do público quer exatamente isso.

Lição: não subestime a audiência. Profundidade não espanta quem quer entender, e é ela que separa a referência de quem só repete a manchete.

Rita Lobo: nicho que vira marca

O Panelinha começou como site em 2000. Depois vieram editora própria, em 2006, programa no GNT, rádio, podcast e uma série de livros. A proposta sempre foi a mesma: receitas testadas para dar certo na cozinha de casa.

O público não procura só "receita de arroz", procura a receita da Rita Lobo. A marca virou o termo de busca.

Lição: uma promessa clara, repetida por anos em todos os canais, constrói uma marca que o público busca pelo nome. Um site próprio ainda dá a ela um endereço que não depende de nenhuma plataforma.

Iberê Thenório: formato reconhecível e constância

O jornalista Iberê Thenório criou o Manual do Mundo em 2008 com Mariana Fulfaro. O canal ficou conhecido por experimentos, curiosidades e "como funciona", com vários vídeos por semana. O formato extrapolou o YouTube e chegou a livro e TV.

Detalhe para quem é da área: Iberê é jornalista. O que ele fez foi aplicar apuração e didática a um tema e manter o ritmo por mais de 15 anos.

Lição: formato reconhecível e frequência previsível criam hábito. O público volta porque sabe o que vai encontrar.

Como aplicar no seu trabalho

Você não precisa abrir um canal para usar essas lições. Elas valem para o repórter de editoria, o apresentador de rádio, o colunista e o criador independente. Comece por estas perguntas:

  1. Sobre qual tema eu posso dar a melhor resposta? Pode ser um bairro, um setor da economia, um time, um tipo de serviço. Quanto mais específico, mais fácil virar referência.
  2. De onde vem a minha autoridade? Formação, anos de cobertura, fontes exclusivas. Deixe isso visível na bio, na página de autor e no próprio texto.
  3. Qual é a minha promessa? Uma frase que o público repetiria sobre você: "ele explica aviação como ninguém", "a receita dela dá certo".
  4. Qual formato é só meu? Uma série, um quadro fixo, um jeito de abrir o vídeo ou a coluna. Algo que o público reconheça em três segundos.
  5. Que ritmo eu consigo manter por anos? Melhor um conteúdo por semana durante cinco anos do que um por dia durante três meses.
  6. Estou pronto para o factual do meu tema? Quando o assunto vira notícia, o público corre para quem já é referência. É o momento de estar no ar, rápido e certo.

Para veículos, a lógica é a mesma em escala. Um portal regional pode ser a referência nacional no seu estado, na sua cultura, no seu futebol. E pode ter, na equipe, repórteres que sejam os "Litos" de cada tema.

O nicho não é limite, é endereço

Lito Sousa, Pirula, Rita Lobo e Iberê Thenório mostram que escolher um assunto não diminui o alcance. Ao contrário, é o que faz o público, o buscador e a IA saberem onde te encontrar.